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Às vezes damos por nós a pensar no passado, um tempo onde as coisas certamente eram melhores que hoje, ou sobre o futuro, onde poderemos realizar alguns dos nossos desejos. Isso é salutar, mas, muitas vezes, deixamos de vivenciar o momento presente que, na verdade, é o único que realmente existe.

Para que possamos começar esse pensamento, gostaria que pudesse participar de um pequeno exemplo (não vai durar nem um minuto) sobre a perceção consciente. Trata-se de uma dinâmica muito simples e fácil de ser realizada por qualquer pessoa que tenha os seus sentidos funcionais.

Primeiro, olhe à sua volta prestando atenção aos objetos, a paisagem, ao momento. Tente, apenas por alguns segundos, ouvir o som da própria respiração. Muito bem! Agora, prepare-se para fechar os olhos – mas leia o parágrafo até ao fim antes de fazer isso (claro) – com os olhos já fechados imagine-se na beira de um lago calmo e tranquilo. Na sua mente perceba as cores verdes das árvores e da relva. Olhe, com os olhos da sua criatividade, pássaros e flores multicoloridas que rodeiam o ambiente que colocou na sua mente. Abra os olhos, olhe à sua volta novamente com calma repetindo o ato de tentar ouvir o som da sua respiração e olhando com atenção os objetos e a paisagem e, só depois disso, leia o próximo parágrafo.

Percebeu uma mudança radical na tonalidade das cores e na qualidade da imagem dos objetos e da paisagem? Sem entrar em muitos detalhes técnicos sobre a constância percetiva e a economia neural, podemos simplesmente falar que: você está mais presente agora porque acalmou os seus ânimos!

O simples facto de se desligar do ambiente temporal e se colocar numa criação mental, que está fora do sistema, pois não é passado nem futuro, disponibiliza mais recursos cognitivos para um real posicionamento na realidade instantânea. Caso não tenha conseguido o efeito desejado não se preocupe. Depois, com calma, tente novamente não é tão difícil assim.

Ocorre que os mais jovens quase sempre projetam-se no futuro e antecipam problemas e soluções. Nesse jogo os problemas vencem as prospeções porque são os mais ativos na memória, por um motivo simples que faz parte do evolucionário, que faz questão de dar privilégios especiais aos momentos ruins, vamos falar depois sobre isto.

Já os mais idosos colocam-se nas suas argumentações vivenciando momentos do passado (muitas vezes adulterados pela própria memória) e não conseguem vislumbrar os acontecimentos presentes de uma forma mais prazerosa. Colocando a história vivida em primeiro plano deixando de lado o que resta para viver.

No entanto, voltando aos momentos ruins, eles sempre prevalecem na memória por um processo de preservação da espécie, a natureza prefere manter com muita força as memórias ruins, onde os fatos não foram os melhores possíveis. Isso é fácil de ser explicado: o mesmo erro não deve ser cometido duas vezes, por isso lembre-se da sua falha. Assim, temos mais facilidade em lembrar das memórias em vez das boas.

Juntando tudo isso num único pacote podemos encontrar mais de mil motivos para privilegiar o presente. Sem essa de selfies como marcadores temporais e conteúdo mediático de redes sociais, devemos apenas viver o momento na sua plenitude. Trazer as emoções ao nível da consciência para serem saboreadas como quem come uma maçã com calma e serenidade.

Não existe segredo: abra os olhos e os sentidos! 

O passado já se foi, o futuro pode não acontecer, só o momento presente é real. Toque, cheire, sinta, aproveite a vida de uma forma sensorial sem tentar fugir da realidade que se apresenta a cada segundo. O único momento em que se pode ser feliz é o agora.

 Mafalda Carvalho

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